quinta-feira, novembro 22, 2007

Os Jardins do Eder

Por Alevi Ferreira
O Imagem Pensamento exibiu vídeos, programas produzidos para a TV e registro de performance de Eder Santos, um dos artistas brasileiros com o maior reconhecimento internacional. Eduardo de Jesus explicou que a curadoria da mostra “Os jardins do Eder” buscou um recorte diferente na vasta obra de Santos. “Normalmente”, explicou Eduardo, “os recortes apresentam os procedimentos de construção de imagens, a relação da palavra e da imagem, noções mais poéticas na obra de Eder”. “Os Jardins do Eder buscam os trabalhos mais relacionados com a questão da territorialidade e do espaço”.

Eder Santos ressaltou a felicidade de exibir seus trabalhos em Belo Horizonte. “Me senti extremamente respeitado pela proposta do Imagem Pensamento e estou super feliz em poder exibir os meus vídeos aqui”, disse. Santos explicou como foi a realização de cada um dos vídeos e respondeu perguntas da platéia.

Seguem abaixo os comentários do artista para cada um dos vídeos incluídos na mostra:

Europa em 5 Minutos (15'13",1987), criação coletiva da Emvídeo, com imagens de Eder Santos, Guto Cortes, F. Laurentys e direção de Eder Santos

“Esse vídeo aconteceu quando a Emvideo ainda era uma garagem. Iam lá vários superoitistas para transferirem material em super-8 para VHS. Aí aparecerem essas imagens de viagens à Europa extremamente fragmentadas. Imagens onde não vemos nada, imagens que não dão para conhecer lugar algum, a gente não sai de lugar algum. Depois eu experimentei um pouco isso com o vídeo “Essa coisa nervosa” que também tem uma idéia de deslocamento e viagem pelo mundo.”

Projeto Apollo (04', 2000), dirigido por Eder Santos, editado por Pedro Campos Vilela e produzido pela Emvideo

“Foi um projeto de curadoria, sobre os 25 anos de TV. Esse é um trabalho sobre a chegada do homem à lua, que muitas pessoas dizem não ter acontecido de verdade. Eu lembro que a minha avó falava que era mentira a chegada do homem à lua. Nós criamos essa lua de mentira e refizemos o fato histórico.”

Neptune's Choice (15', 2003), dirigido e editado por Eder Santos. Trilha: Stephen, Gráficos e Assistente de Direção: Pedro Vilela, Consultores de Texto: André Rubião e Tom Van Vliet. Produção: Emvideo e Trem Chique e Framed by Curtains (11'18", 1999), dirigido por Eder Santos. Trilha: Paulo Santos e Frederic Conan. Gráficos: Pedro Vilela. Áudio: Rec Studio. Edição:Eder Santos, André Amparo e Pedro Vilela. Produção: Emvideo e Trem Chique

“São duas video-cartas. Framed eu fiz em Hong Kong, onde comprei a minha primeira câmera digital. Aí eu enviei esse vídeo para a Holanda e fui chamado para morar em Amsterdã para fazer um vídeo sobre a cidade. Foi a primeira vez que eu morei fora do país para fazer um vídeo, mudar para um lugar e ficar imerso.”

Acidente Geográfico (18', 2000), dirigido por Eder Santos. Gráficos: Pedro Vilela. Produção: Emvideo

“Loucura, saímos daqui para enterrar móveis no Espírito Santo! O Nuno Ramos não se conformou que o mar levou os móveis, tanto que ele fez outro trabalho usando o mesmo recurso!”

O que ela tem só ela tem (07', 2006) de Eder Santos

“Programa produzido para o Canal Futura, é mais uma carta para uma cidade, dessa vez para Havana. É um vídeo sobre o sono na cidade.”

A place where no cars go (04", 2007) e A place where no cars go – Performance (22', 2007) de Eder Santos

“É sempre um risco exibir trabalhos dessa maneira, um inacabado e o registro de uma performance.”

Perguntas:
Vídeo, narrativa e fragmentação.
“A narrativa no vídeo tem pouca experimentação, o vídeo fica dividido entre várias outras coisas, o cinema, a TV que já tem uma experiência na narrativa. O vídeo é uma criança em narrativa. O espaço da instalação tem essa coisa mais calma. Sobre a fragmentação em Neptune’s, o vídeo é uma ausência de imagem”.

Videoarte x Documentário.
“Eu não trabalho com documentário, eu não gosto de trabalhar com o que é do outro, eu sinto que estou roubando algo de alguém. Eu gosto de trabalhar com as coisas que eu gosto e que eu penso”.

Texto e imagem
“Encontrar o equilíbrio entre texto e imagem no vídeo é muito complicado”

Vídeo e outras artes
“Quando eu entrei na Belas Artes eu vi que lá não era o meu lugar; aí eu fui fazer vídeo. Foi tudo um acidente”.

Processo criativo
“Cada um dos vídeos foi criado de um jeito, mas todos eles tem um texto. Parece que é sem roteiro, mas todos os vídeos são feitos a partir de um roteiro. A edição às vezes é que muda o projeto. A edição manda em tudo e às vezes até o erro manda em tudo”.

terça-feira, outubro 30, 2007

Ruínas e Impasses do Pós-Guerra

Por Alevi Ferreira


A mostra Ruínas e Impasses do Pós-Guerra que o Imagem Pensamento exibiu no dia 27/10 contou com os comentários de César Guimarães, pesquisador e professor do Departamento de Comunicação da UFMG. César iniciou falando sobre o desafio que é, para ele, comentar obras em vídeo, que trabalham em circuito diferente e com uma dinâmica diferente da produção cinematográfica. “Ao falar do vídeo eu compartilho o lugar do espectador comum”, disse.

Guimarães fez um contraponto entre a produção atual e a nova escrita do vídeo saudada por Raymond Bellour no livro” Entre-Imagens”, publicado no início dos anos 1980. Se, para César, o livro era um projeto ambicioso que saudava como era possível crer no mundo das imagens a partir do vídeo sem propor uma experiência transcendente, na contemporaneidade vemos que o vídeo se multiplicou assim como as suas temáticas. “O maneirismo do vídeo fica no passado”, disse César. “Na produção atual, vemos o novo reencontro das imagens do mundo”. Se no trabalho de Bellour, afirma César, o contraponto era a imagem do cinema, na atualidade o contraponto ao vídeo são as novas imagens. “O vídeo é menos inocente e mais simples que a imagem da TV, por exemplo”, afirmou César. Com a diversificação da produção, César propõe que renovemos nossos cânones de criadores de vídeo. “Existe uma produção institucionalizada nas galerias e uma outra ligada ao domínio do anônimo”, disse. Sobre os trabalhos exibidos na mostra, César entende que a questão autoral está intimamente relacionada a questões políticas. Para ele, “(Posthume)” (28’, 2007) de Ghassan Salhab é construído por meio de recursos simples e por imagens bastante literais. Segundo César, o vídeo é constituído a partir da perspectiva dos mortos. “È a estranha memória daqueles que já não estão mais na existência”, disse. “A cidade real é tomada por uma outra, fantasma”.

Sobre “We will live to see these things, or, five pictures of what may come to pass” (47'04",2007) de Julia Meltzer e David Thorne, César destacou que o vídeo trabalha por meio do recurso da ironia. “Já no início vemos uma pequena alegoria, o prédio que se transforma em ruína antes mesmo de nascer”, disse. “Nesse vídeo a chave crítica é irônica”.

Oriente-Médio

César também destacou que esses trabalhos nos oferecem uma nova forma de enxergar o oriente-médio. “Lá eles convivem com os fundamentos da civilização e com uma modernidade cruel”, disse. Os vídeos exibidos na mostra, afirma César, desafiam o espectador a sair do lugar de espectadores de TV para o lugar de espectadores descontextualizadas. “A TV busca sempre colocar um contexto para as imagens que exibe, enquanto esses autores retiram as imagens buscam uma outra relação”. Para César, nossa dificuldade perante essas imagens se dá pelo fato de termos a cabeça cheia de clichês. “Não sabemos nada desse mundo, temos dificuldade de dar conta da particularidade”, diz César.

quarta-feira, outubro 17, 2007

Recomendamos


"The Archive (Documents of Contemporary Art)", conta com ensaios de Giorgio Agamben, Atlas Group, Walter Benjamin, Jacques Derrida, Michel Foucault, Sigmund Freud e Andy Warhol, entre outros. O curador da mostra "Ruínas e impasses do pós-guerra", que o Imagem Pensamento apresenta em outubro, o artista libanês Akram Zaatari, têm um ensaio publicado no livro. O texto intitulado "Photographic documents/Excavation as art" trata de como a questão da memória influência na sua obra. Mais informações sobre o livro na Amazon.com

Ensaios sobre o olhar e sobre a cegueira, por Paula Alzugaray

Muxima, assim como grande parte do corpo da obra de Alfredo Jaar têm como problemática central: o olhar (sobre realidades).

“Não o que se vê, mas quem vê e porque razões não está disposto a ver o que vê”, declarou ele certa vez.

Então, se quem vê está no centro das preocupações do artista, cabe aqui pensar quem é o artista que enxerga e que registra Angola, quando assistimos a Muxima. Que olhar ele dedica ao pais africano.

Me pergunto se é pertinente pensar o olhar de Alfredo Jaar como o olhar de um estrangeiro – dado que hoje, já há algum tempo e cada vez mais, a noção de estrangeiro vinculada a uma questão geográfica e territorial está ameaçada.

Dentro de um contexto de globalização, multiculturalismo, pós-colonialismo, pós-modernismo, etc, a percepção do que é ser estrangeiro foi sensivelmente modificada. Hoje, em um panorama que “expande” a condição do estrangeiro para “estrangeiros nativos” ou “exilados internos”, presenciamos a todo momento sensações do gênero: “sentir-se em casa com estrangeiros” ou “sentir-se estrangeiro em casa”.

Também não são incomuns os que dizem que “o mundo inteiro é um lugar estranho”. Esse parece ser o caso de Alfredo Jaar, esse chileno residente em Nova York, quando afirma, em entrevista ao periódico El Pais:

“Onde quer que eu vá, sempre serei um estrangeiro. Não pretendo me transformar em uma pessoa do lugar, sou e serei sempre um outsider. E quando faço meus trabalhos, faço-os sempre em meu nome, não pretendo representar nenhuma comunidade ou falar em nome dela de forma paternalista, tentar ser a voz dos despossuídos. É a minha opinião a que eu expresso em meus trabalhos. Na África me sinto uma testemunha, um amigo, um observador critico e solidário”.

O vídeo Muxima está atualmente em exibição numa exposição no Pavilhão Africano da Bienal de Veneza, o que não quer dizer que esteja representando a África na Bienal de Veneza, da mesma forma que o José Damasceno foi convidado a representar o Brasil ou um artista canadense a representar o Canadá.

A exposição de que Muxima participa, intitulada “Check List Luanda Pop” se pretende, ao contrario de uma representação nacional (que quer demarcar a identidade de um território, ou de um povo), um lugar de cruzamentos culturais.

Muxima divide a exposição com trabalhos de artistas de países africanos, como o Egito, a Argélia, a África do Sul, Angola, Quênia, Nigéria, etc; mas também de outros paises, como Espanha, Haiti e Estados Unidos.

Mesmo que as fronteiras geo-políticas possam estar relativizadas neste espaço especiífico da arte, continuamos tendo em Muxima um olhar estrangeiro. Por maior o número de viagens que Alfredo Jaar tenha feito à África, por maior que tenha sido o seu envolvimento nos três trabalhos que realizou lá, seu olhar continua sendo de um estrangeiro.

Não é o mesmo olhar com que o antropólogo ocidental ou o artista moderno olharam para a África, ou para o chamado “Novo Mundo”, à procura do exótico, do diferente, do desconhecido. Mas para realizar Geografia = Guerra (na Nigeria); Ruanda (sobre 1 milhão de vítimas do genocídio de 1994) e Muxima, Alfredo Jaar está olhando a África com os olhos de um artista chileno, residente em Nova York.

Em Muxima, percebo que o olhar de Jaar se demora, por exemplo, em imagens de ruínas da colonização portuguesa: a azulejaria barroca; os conquistadores colocados diante de um muro (como se tivessem sido colocados em um paredão de fuzilamento, talvez?).

Isso é parte da história de Angola, claro, que apenas conquistou a independência de Portugal em 1975. Mas é também parte da história do artista, nascido em uma região que também foi colonizada.

(A presença do conquistador está subjacente também à canção, que em uma das versões (canto 9) tem trechos cantados em português. E em outra versão (canto 10), é tocada no piano, num arranjo “ocidental”.

O olhar do artista latinoamericano está também expresso nas imagens de placas de rua com nomes de lideres revolucionários do século 20: Lenin, Guevara, Allende.

O vídeo fala do encontro entre África e cultura ocidental.

A declaração do artista de que não quer “ser a voz dos despossuídos” me remete à cena (do canto 6) em que “nativos” fazem fila para falar no microfone, mas suas vozes não são ouvidas. Permanecem ocultas sob a canção Muxima.

A voz, em questão no filme, é portanto, a voz do artista. Para Jaar, como para outros artistas documentaristas, um documento é uma expressão pessoal. E aqui voltamos ao Kino-olho de Vertov.

E por mais que ele tenha afirmado, na mesma entrevista ao El Pais, que se considera “um jornalista frustrado”, a abordagem que ele faz da realidade é oposta a de jornalistas documentaristas. Não é a denúncia. Seu intuito não é veicular uma informação. Mas “provocar afeto”.

O “provocar afeto” de Jaar se parece ao “reinserir a complexidade das coisas”, que é o intuito do documentário de Mauricio Dias e Walter Riedweg, por exemplo. SE parece também com o interesse de Alice Miceli, outra artista que trabalha com a documentação da realidade, em trabalhar na esfera do “irretratável”.

É a mesma preocupação em trazer à tona camadas de sentidos sobre os acontecimentos (trágicos) do mundo, que foram velados pelo tratamento que os meios de comunicação reservam à notícia.

É por sua critica da manipulação à qual está submetida a imagem do outro, que a obra de Alfredo Jaar me parece um “ensaio sobre a cegueira”.

White Balance, de François Bucher, já no título e na seqüência de abertura, remete não só a uma cultura nivelada pelo branco da pele, mas ao vácuo moral e ao estado de anestesia mental, produzidos pelo tratamento que a mídia e a sociedade de consumo dedicam aos grandes traumas do cotidiano.

O vídeo de Bucher se refere à mesma cegueira sugerida por Jaar, mas se utiliza de uma estratégia diametralmente oposta para falar dela. Por isso, o interesse desse programa que nos é proposto pelo Eduardo de Jesus.

Jaar trabalha com a linguagem poética do cânticos. Bucher é um hacker, um pirata multimídia, que se apropria, sampleia e sobrepõe camadas de imagens e sons dos mais diversos meios de comunicação – inclusive das câmeras de vigilância - para desvelar os esquemas de sistemas de controle. Lembramos de Muntadas, do detournement de Guy Debord.

A partir de recortes de outros discursos, o filme constrói um discurso sobre a tensão entre o nativo e o estrangeiro (home and abroad). Em sobreposições de discursos, relaciona o americano nativo com o bem; e o imigrante estrangeiro como o mal. As feições brancas do cidadão ocidental versus a face de satã na figura do estrangeiro.

Para ilustrar essa luta do bem contra o mal que toma conta do discurso midiatico dos Estados Unidos pós-11 de Setembro, Bucher estabelece um paralelo entre o evento trágico e o longa-metragem “Efeito Colateral”, que entrou em cartaz na mesma época.

Na dinâmica da “vida que imita a arte” versus “arte que imita a vida”, o terrorista do Afeganistão que atirou os aviões contra as torres é relacionado ao terrorista colombiano que mata a mulher e o filho de Swazenegger.

Aqui, de forma inesperada, o autor, François Bucher, colombiano nascido em Cali e residente em Nova York, se coloca no filme. Final, ele compartilha da nacionalidade do terrorista da ficção.

Questões como nação, nacionalismo, identidade nacional, racismo, xenofobia e imperialismo (tratadas também em Muxima) são vistas em White Balance de forma mais agressiva.

Com isso, quero colocar que o documentário é esse território em que nos deparamos com o fato estrangeiro, e com a cegueira que ainda temos em relação a ele, e onde nos enxergamos, direta ou indiretamente.


O texto acima foi apenas o roteiro utilizado por Paula Alzugaray durante o debate na mostra Interseções.

segunda-feira, outubro 08, 2007

"White Balance", por Cezar Migliorin


Cezar Migliorin, convidado do Imagem Pensamento de setembro postou em seu blog um comentário sobre o vídeo "Wite Balance", de François Bucher. Confira aqui!