sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Entrevista com Galina Myznikova & Sergey Provorov
Confira, abaixo, uma entrevista que o Imagem Pensamento realizou com a dupla de artistas Galina Myznikova & Sergey Provorov.

1.Vocês começaram dirigindo e escrevendo obras para a televisão. Como iniciou o trabalho de experimentação artística em vídeo? Como vocês se aproximaram do ambiente da arte?

Nós criamos a nossa primeira obra em 1993. Não tínhamos o nosso próprio equipamento. Só emissoras de TV possuíam o equipamento e por isso nós recorremos à ajuda de nossos amigos que trabalhavam em um estúdio de TV.

A nossa primeira produção, chamada “Motion”, foi filmada a partir de uma cabine de operação de um metrô em movimento. A duração desse trabalho é de 3 minutos. Ele retrata movimentos suaves e contínuos da câmera ao longo do túnel escuro com as linhas de serviço. A imagem foi quase abstraída por causa de manchas luminosas nas janelas das cabines. Criou a impressão que o escuro era arrastado e envolvido dentro do túnel e que os reflexos adicionaram algumas colorações misteriosas. Devido à sua novidade, despertou interesse entre os empresários de TV e fomos convidados a trabalhar na criação do nosso próprio programa de TV.

O show era fundamentalmente diferente de tudo o que foi produzido na televisão. Havia apenas arte e nenhuma cobertura de eventos. Nós ignoramos totalmente em nosso trabalho a comunicação verbal. Informação era apenas em imagem e som. Foi anti-televisão, de certa forma, uma subversão radical em relação à própria televisão.

Gradativamente os empresários do estúdio de TV perderam o interesse nesses experimentos e três anos depois o programa foi cancelado com a seguinte explicação: o programa não cumpre a finalidade da televisão, uma vez que não forma "opinião pública", não dá cobertura a importantes questões públicas e não oferece qualquer discurso histórico em um formato documental. Nos foi pedido que adaptássemos ao que foi pedido ou que deixássemos o Canal. Escolhemos a segunda opção.

Nessa altura, e foi em meados de 90, artistas russos tinham começado a ter um interesse ativo em novas tecnologias na arte. Videoarte e vídeo-instalações estavam sendo produzidos com enorme interesse por Moscou e São Petersburgo. Os recém-inaugurados centros e galerias de arte contemporânea realizaram exposições e festivais quase que mensalmente e atraíram enorme atenção. Freqüentemente havia instalações que faziam uso do vídeo.

Em pouco tempo um centro cultural semelhante foi inaugurado em Nizhniy Novgorod. O centro também estava interessado em vídeoarte como uma das mais promissoras direções da arte contemporânea; nós criamos a nossa primeira vídeo-instalação e a expomos no telhado desse centro de arte.

2. Vocês ainda atuam em produções comerciais? Qual tipo? Essas produções mais voltadas para o mundo comercial dialogam de alguma maneira com o trabalho mais artístico?
Nos sustentamos separados a partir de encomendas comerciais para produções em vídeo por vários anos. Os motivos são os baixos níveis de empenho intelectual dessas produções e a ausência de procura de sociedades artísticas e comerciais.

Posteriormente, no entanto, a publicidade nos deu a oportunidade de utilizar nas produções equipamentos de vídeo de alta qualidade e empregar profissionais para a produção de encenações complexas.

Graças à publicidade, criamos uma equipe de técnicos com quem mais tarde trabalhamos em projetos artísticos. As obras criadas por nós não eram "puramente" publicitárias. A ênfase artística prevaleceu em nossas produções. A base para esse pensamento era manter uma atitude séria na produção de nossos comerciais, já que nos festivais de vídeo eram vistos como obras de vídeoarte.

3. Qual a formação de vocês e as principais influências artísticas? Há uma vinculação com as vanguardas russas (formalistas e construtivistas), no sentido de atualizá-las?

Fomos muito influenciados pelas vanguardas russas de 1910 e 1920, em especial as experiências na área da linguagem cinematográfica. Pensamos que os nossos professores em espírito foram esses produtores clássicos da cinematografia soviética, como Eisenstein, Vertov, Dovzhenko. Nós estudamos cuidadosamente seus filmes e textos teóricos sobre as possibilidades de edição e as poéticas cinematográficas.

Em nossos primeiros trabalhos nós ignoramos quase totalmente a edição e acreditávamos que um filme deveria ter como característica principal o fluxo constante, que levariam o trabalho para mais próximo do repouso total, a harmonia e o absoluto. Foi uma tentativa de criar filmes totalmente poéticos, uma tentativa de acalmar e de deixar tudo inativo. Ao passo que a edição envolve certa intensidade, oposições e propriedades estruturais de um filme. Isto é o que nos fascinava no final dos anos 90.

Tensões dentro do quadro e ações tornaram-se os princípios para o trabalho nos nossos longos períodos de edição. Esses trabalhos possuem uma certa semelhança com as experiências dos anos 1920 (dadaísmo) e 1960 (estruturalismo alemão). Nós estávamos interessados na ação fora do quadro.

O ápice desse período foi o trabalho chamado “20.21”, que foi totalmente baseado em uma combinação de frames estáticos. Não houve praticamente nenhuma ação “interframe” ou produzida com a ajuda de ação “extraframe” (animação).

Os frames de um documentário sobre os arquivos e bibliotecas viraram imagens irreais, surreais e absurdamente misturadas e com diferentes velocidades de edição. Foi uma espécie de super-estruturalismo. O trabalho com mais de 40000 imagens estáticas deu origem a "uma nova realidade”.

No começo do novo século, ficamos cada vez mais fascinados pela ação performática e, naturalmente, passamos a dominar os recursos do movimento dentro do quadro, do teatro, dos modos de filmagem documental e atuação encenada só para a câmera. Nós moldamos gradualmente a nossa própria visão subjetiva baseada em emoções introspectivas e preocupações. Desenvolvemos a técnica de "falso suspense” e da manipulação psicológica da percepção do público. Foi importante para nós criar um sentimento de alerta e de instabilidade no público.

4. Vocês já estiveram na Bienal de Veneza de 2005. Como foi a experiência de ocupar o pavilhão da Rússia e qual foi a repercussão do trabalho?

Em 2005 fomos convidados a criar um projeto para o pavilhão da Rússia na 51ª Bienal de Veneza. Tivemos todo o primeiro andar à nossa disposição. A idéia era bastante radical, tanto para nós como para as tendências da arte russa. Nós decidimos abandonar totalmente o componente visual e trabalhar apenas sensações táteis. O projeto que nós oferecemos apelava para a percepção psicossomática e sensorial da audiência como se contrastasse com os sinais “Por favor, não toque na pintura” ou “Por favor, não pise na grama”. Lá o espectador podia chegar perto, tocar, sentir com a pele, cheirar e até pegar um resfriado. O personagem principal da instalação foi o vento. Três salas foram construídas e ligadas entre si por pequenos corredores. Todo o espaço foi revestido com painéis, a fim de destruir o componente visual secundário por meio de um material neutro.

O visitante entrava nos salões escuros e vazios e podia sentir a presença de vento em uma determinada parte do corredor só com a ajuda de seu corpo. O visitante procurava entrar em contato com o vento. O poder do ar aumentava em cada um dos salões. Na primeira sala o visitante podia tocar o vento, apanhá-lo com as mãos, então ele se torna mais e mais dependente do aumento do poder dos fluxos de ar. O último dos salões modelou um furacão, onde as pessoas não poderiam permanecer em pé. O vento as pressionava contra a parede e eles sentiam seus ouvidos estalarem.

O vento transportava vozes infantis, que depois transforma-se num poderoso e ansioso coral cantando. Neste projeto nós propomos um novo entendimento da interação, diferente da noção popular baseada apenas no uso do computador. Lá nós oferecemos a interação que imitava as condições naturais e parecia autêntica.

5. Qual é o processo de criação de seus trabalhos? Qual é o ponto de partida?

Temos que tirar idéias do contexto. Um impulso para a criação de um vídeo pode ser um programa esportivo, bem como fotografias, imagens antigas ou um passeio num bosque. É importante guardar uma imagem visual que mais tarde poderá dar origem a um enredo ou tema. Antes de começar a produzir, o filme está totalmente pronto em nossas mente e nós pensamos nele já concluído nesse estágio metafísico.

Tudo o que ocorre depois - filmagem, edição e montagem - é um processo muito doloroso e nada interessante para nós e que nos deixa decepcionados devido às imperfeições no material obtido.

Fazemos votos para que, num futuro próximo, os avanços tecnológicos nos forneçam um equipamento que nos permita levar o projeto direto de nossas mentes para o vídeo.

6. Como vocês definem o conceito de linguagem não-verbal e como ele é importante no trabalho de vocês?

Em 1994, quando trabalhávamos em TV, nós desenvolvemos o conceito de "informação não-verbal", no qual nós propomos, nos termos da própria televisão, uma abordagem anti-televisiva ou neo-televisiva para transmitir programas noticiosos e uma compreensão estrutural da informação.

A informação foi dividida em “elementos primários"(o som, cor, ângulo, ritmo, composição, etc), sem qualquer mensagem literal ou verbal. O princípio é que qualquer um dos elementos primários, por si só, quando corretamente combinados, são suficientes para a cobertura informativa de qualquer evento.

7. Como é a cena de arte contemporânea na Rússia? Vocês estabelecem algum tipo de diálogo com os outros artistas russos?

Desde um certo tempo os russos têm demonstrado bastante interesse na arte contemporânea. Há uma noção de "elite artística '. Alguns dos seus membros não estão listados em razão do valor artístico do seu trabalho no contexto internacional, mas através da procura comercial sobre o mercado russo de arte, o que é conseguido com campanhas promocionais. Isso nem sempre conduz a uma correta compreensão do significado da cultura russa contemporânea como um todo.

A comunidade de artistas contemporâneos não é muito grande para os padrões internacionais, é por isso que os artistas são obrigados a cooperar em grandes exposições onde representam a arte russa no estrangeiro.

Apenas alguns artistas estão envolvidos em vídeoarte. A maior parte deles está muito interessada em criar obras. Os seus estilos artísticos são absolutamente diferentes entre si e dão origem à discussão, argumentação, conflitos, isto é, os artistas não são indiferentes e mostram interesse recíproco.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Novas vanguardas russas: os vídeos de PROVMYZA
14/02 - 20h - Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes
Belo Horizonte - MG
ENTRADA FRANCA


quinta-feira, dezembro 18, 2008

Intimidade Partilhada

O Imagem Pensamento apresentou nos dias 13 e 14 de dezembro a mostra “Intimidade Partilhada”, com alguns trabalhos de Carlos Nader. Nader participou da sessão do dia 13, debatendo com o público o seu documentário mais recente, “Pan-cinema permanente” (2008), sobre o poeta baiano Waly Salomão.

O diretor contou que a idéia de fazer o filme surgiu junto com o Waly, em meados dos anos 1990. “A idéia era fazer um filme para o grande circuito com uma câmera pequena”, contou. Segundo Nader, as câmeras menores e com mais qualidade surgidas no período possibilitaram uma nova forma de fazer audiovisual. “A tecnologia, reduzindo a câmera, deu de presente para os artistas a possibilidade de produzir uma arte menos mediada”, disse. “Toda arte é mediada, seja pela caneta que possibilita o trabalho do escritor ou o pincel que media o do pintor: sempre há uma tecnologia para realizar o trabalho poético, apesar da redundância do termo trabalho poético”. Para Nader, câmeras menores diminuem o tamanho da equipe, o que faz com que o diretor possa ter uma relação mais direta com o que filma, permitindo que o próprio processo de fazer o filme seja o mais valorizado. “O poema ou um quadro às vezes se revela para você. Aquilo tem uma vida própria e você tem um diálogo com aquilo”, disse.

Waly Salomão

O tema central da fala de Carlos Nader foi o filme sobre o poeta Waly Salomão. “O filme se chama Pan-cinema Permanente por causa de um poema homônimo que ele dedicou pra mim, depois de uma longa caminhada pelo Leblon, na qual falamos das novas possibilidades do cinema, com as pequenas câmeras de gravação que apareceram naquela época, como o Hi-8. A gente se falava todos os dias. É estranho dizer isso, mas o Waly era um bom ouvinte”, lembrou. “Esse filme é um instrumento para divulgar a poesia dele”. Sobre os entrevistados, Nader explicou que a entrada daqueles que aparecem no filme foi uma escolha estética. “Entrevistei umas 20 pessoas, mas usei umas 6 ou 7. Eu só deixei gente com quem eu tinha intimidade e por causa de uma musicalidade”, explicou. “As outras vozes destoaram e o filme foi para um outro caminho”.

Nader também destacou que Pan-cinema não é apenas um filme sobre o Waly. “É um filme com ele, co-dirigido com ele, co-tudo”, disse. “A coisa mais importante do filme é mostrar como o Waly via o mundo. E como eu sou diferente dele, isso ajuda a traduzir essa intensidade que é o Waly”.

A mostra

Além de Pan-cinema Permanente, outros três vídeos foram exibidos. No sábado, junto com o documentário sobre Salomão, foi exibido ainda o vídeo “Carlos Nader” (1998). “O curador às vezes estabelece conexões que a gente não faz. Foi muito interessante ver esses dois trabalhos juntos”, disse Nader. “O Waly não gostava muito desse vídeo, por exemplo, o achava muito subjetivo, além dele aparecer pouco”.

No domingo foram exibidos dois documentários realizados por Nader nos anos 1990, “O beijoqueiro” (1992) e “O fim da viagem” (1996). “São trabalhos bem diferentes do Pan-cinema”, disse Nader. Esses trabalhos, pouco exibidos em Belo Horizonte, são extremamente representativos dentro do que se convencionou chamar documentário contemporâneo. Ausência de narração em off, explicitação do dispositivo e imersão do diretor no ambiente das personagens são algumas das características marcantes dos vídeos.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Intimidade Partilhada: os vídeos de Carlos Nader
13 de dezembro - 19h30 e 14 de dezembro - 20h
Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes - BH/MG






terça-feira, novembro 11, 2008

CORPIMAGEM: campo, agenda, ações, vídeo e dança

O projeto Imagem Pensamento retomou suas atividades com a mostra CORPIMAGEM, exibida no dia 08 de novembro no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes. Os nove trabalhos que compuseram a exibição foram comentados pela professora da PUC-SP e crítica de dança Helena Katz. Confira, abaixo, um resumo do que foi debatido.

Um campo e sua agenda de ações
Para analisar a mostra, Katz trouxe o conceito de campo político, desenvolvido pelo filósofo Francisco de Oliveira. Segundo a pesquisadora, nas artes existe uma discussão a respeito da delimitação de campos (pintura, vídeo, escultura, etc.). “Um campo está montado quando existe uma agenda de ações”, diz Katz. Ela entende que existe uma agenda de ações quando a imagem é o corpo. “Quando a gente identifica essa agenda, quem a propõe coloca todo mundo em relação em torno dela”, prossegue a pesquisadora. “É em torno dessa agenda que o campo irá se mover”.

Os vídeos e seus tempos
Segundo Katz, os trabalhos exibidos na mostra CORPIMAGEM fazem parte de um recorte histórico bem amplo. Esse percurso grande, segundo ela, demonstra como cada vídeo carrega em si os entendimentos de cada um desses tempos. Sobre essa questão, Katz traçou algumas linhas que, para ela, facilitaram o entendimento de quais ações agendariam o campo ali proposto.

Língua própria
“É a imagem se constituindo com uma língua própria”

Proximidade
“Existe a questão da Proximidade, quando a imagem se aproxima do corpo: o que interessa quando a imagem vai fazer a língua de um corpo?”

Paisagem
“Outra ação é o corpo como Paisagem, a imagem que se sobrepõe e o corpo que é e está na paisagem.”

Acumulação
“A repetição de movimentos, a partilha e acumulação de partes. É uma idéia trabalhada nos últimos 10, 15 anos”

Extensões
“O corpo como extensão. Que extensão o corpo pode ser? Continuidade de um outro corpo?”

Edição
“Trabalhos independentes daquilo que contam, o que sobrepõe é a edição, o trabalho se apresenta pela edição e não o que a edição está editando”

Deslocamento
“Não é para desestabilizar, apenas deslocar”

Segundo Katz, esses sete temas que ela propõe como agenda são ações que normatizam um campo.

Percepção

De acordo com Helena Katz, as tensões entre corpo e imagem estão sempre cercadas pela percepção. “A percepção não é uma coisa que nos acontece”, diz Katz. “A percepção é algo que o nosso corpo faz dentro do que ele pode fazer”. Para ela, essa limitação que todos possuem é que faz com que recortemos o mundo. O mundo é um pedaço possível, pois existe uma limitação que é cultural e também uma que é biológica. “Essas limitações são as ações que me fazem inventar o mundo”, diz. “É pelo diznso que a gente vê como o mundo é inventado”

Vídeo-dança
Respondendo a uma pergunta da platéia, Helena Katz falou sobre qual campo se constitui hoje na relação entre o corpo e a imagem. “Existe o desejo de constituir um campo de trabalhos de dança feitos para o vídeo, a vídeo-dança”, diz. “É um campo bem próximo da dança contemporânea, onde a imagem é centrada na materialidade do corpo”.