segunda-feira, outubro 08, 2007

"White Balance", por Cezar Migliorin


Cezar Migliorin, convidado do Imagem Pensamento de setembro postou em seu blog um comentário sobre o vídeo "Wite Balance", de François Bucher. Confira aqui!


terça-feira, setembro 18, 2007

O que o estreitamento da fronteira entre o documentário e a Arte Contemporânea implica para ambos? [2]

Genealogia incompleta de uma história em construção: interfaces e desencontros entre doc.art., segundo Patrícia Moran

O debate sobre o documentário e a arte contemporânea aciona noções como fronteiras e cruzamento de fronteiras na criação audiovisual. Se a defesa da especificidade é de um purismo pouco produtivo vale para uma leitura sobre a habitação da fronteira, sobre este lugar que é um entre, uma relação. A aproximação se dá em uma via de mão dupla. O olhar propositivo do audiovisual contemporâneo tem diversas filiações: da modificação das belas artes à crescente experimentação das imagens em movimento com a arte do vídeo.

O entendimento da arte como conceito, como um modo de se abordar o mundo e seus objetos, abre campo para a arte ser um sistema de signos, que a comunidade interpretativa autoriza ou nos obriga a ler como tal, consensos são negociados, inexistem aprioris. Alarga-se o entendimento do que vem a ser arte, fenômeno social negociado e construído por atritos mais, ou menos, bélicos. É com Duchamp que se inaugura a desconstrução como gesto da arte. A noção de obra como a criação de um objeto não resiste, prevalece a produção de conceitos, de deslocamentos nos modos de ver. Há o fazer despido de materialidade específica, a arte vale pelos questionamentos e criticas aos usos da cultura e da arte. Se até então a materialidade da representação de um quadro, escultura, etc., evocava bens imateriais, ou seja, simbólicos, agora os conceitos em objetos é o que vale. O material é lugar do jogo de sentidos, jogo de idéias. Se tudo muito arte e, num primeiro momento, muito vago, sem convenções consolidadas.
Esta fenda no sentido da arte abre uma passagem inédita para o alargamento dos modos de se fazer. Enquanto a arte já havia abalado no inicio do século a fixidez da forma e da materialidade, a preservação da especificidade persistia em instituições como museus e galerias. A história de aproximações é longa e nem sempre pacífica, um caso exemplar da resistência das belas artes a fazeres não catalogados, ainda não considerados saber é o caso de Abraham Palatnik e sua arte cinética como objeto ou em superfícies. Em 1951 foi incluído por sorte do acaso na I Bienal de São Paulo, a falta da delegação japonesa abriu espaço para seu trabalho recusado. Aquele aparelho cinecromático visto pelo júri internacional mereceu uma menção honrosa. De excluído Palatnik passou a premiado incompreendido.
Na década de 60 há uma aproximação definitiva entre a arte das belas artes, o audiovisual e distintas poéticas sejam elas voltadas para o mercado da arte, da publicidade, do jornalismo ou pequenas experimentações de fundo de quintal. No Brasil os artistas plásticos se aproximam do vídeo. Em seu gesto no audiovisual prevalecia uma programação das artes plásticas. Ainda se poderia falar de olhar das artes plásticas, tradução visual de representações de um formalismo usual na imagem fixa, no desenho e nos objetos da arte concreta.
Para se constituir como um meio com estratégias diferenciadas o vídeo precisou de tempo e o legado de artistas do cinema foi fundador. Para ficar apenas no Brasil podemos pincelar algumas exceções como o artista Arthur Omar. Fazia filmes experimentais já nos anos 70 que não cabiam na rubrica do cinema marginal ou das artes plásticas. Ivan Cardoso e seus super-8 com e sobre Helio Oiticica e seus parangolés, como HO experimentava. Fazia-se Quase-cinema conceito de Helio Oiticica homenageado em 1981 com o titulo homônimo de uma revista publicada pela Funarte. Quase-cinema é um nome para o “filme de artista” que localiza o mesmo pela fronteira, por aquilo que ele não é. Artes plásticas em dialogo com o cinema, mas ainda não institucionalizada na escala dos dias de hoje.
Tentando sair desta quase-genealogia, incompleta e pessoal, faço menção rápida a ser desenvolvida em outra ocasião sobre este projeto audiovisual de fusão formal de manifestações expressivas. O filme de Ivan Cardoso citado era à época um gesto performático para o registro cinematográfico de uma experiência de amigos. Arthur Omar fazia outro movimento, é mais próximo da nossa discussão, fazia “quase-documentário-cinematográfico”. Na mesma época o vídeo também era experimentado com formalização poética análoga ao concretismo e neo-concretismo.
Cruzamentos de signos continuaram nestas duas últimas décadas a ponto de haver o imbricamento de estratégias de representação, de visibilidade e de postura em relação à arte e ao encontro com o real. O cotidiano habitado por mediadores técnicos, por leituras de mundo aparece comentado por artistas filiados tanto às artes plásticas quanto ao audiovisual. A produção de uma situação para registro e documentação, a representação de determinadas coisas do mundo e o encontro com o real por idéias fabricadas são estratégias do documentário e da arte contemporânea. Os trabalhos “Igreja revolucionária dos corações amargurados” de Carlos Magno e “A dialogue and a landscape” de Roberto Belline são realizações de artistas formados em escolas de Belas Artes que construíram sua trajetória expressiva principalmente no audiovisual. Carlos Magno constrói uma igreja em um final de semana como meio de encontro com fieis verdadeiros. Belline transforma um encontro fortuito em documentário. No dia 29 de setembro nos encontramos para pensar nos trabalhos propostos a articulação das coisas do mundo e de sua produção. Ou o cruzamento do modo poético, observativo e performativo[1] do documentário nos trabalhos com diferentes relações com o real. O real é o lugar de observação do realizador, o filme um relato do encontro.
[1] Denominação de Bill Nichols a alguns dos tipos de documentário segundo sua clássica classificação.

Patrícia Moran teve alguns dos seus trabalhos exibidos na edição de junho do Imagem Pensamento. Nascida e criada em Belo Horizonte, morou no Rio de Janeiro enquanto cursava o mestrado na UFRJ e em São Paulo quando se doutorava em Comunicação e Semiótica pela PUC. Professora do curso de Comunicação Social da UFMG, na graduação e pós. Realiza pesquisa de linguagem em diversos meios expressivos audiovisuais explorando as possibilidades de jogos entre gêneros.
Seus trabalhos já foram exibidos em festivais de cinema e arte eletrônica, em diversos paises como: Hungria, Itália, Cuba, Venezuela, Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos, República Dominicana, Holanda, Austrália dentre outros, conquistou mais de vinte prêmios nestes anos. Em 2003 foi realizada uma retrospectiva de seu trabalho em Buenos Aires com a curadoria de Jorge La Ferla no VII MECVAD ( Muestra Euroamericana de Cine, Vídeo y Arte Digital).

quinta-feira, setembro 13, 2007

O que o estreitamento da fronteira entre o documentário e a Arte Contemporânea implica para ambos? [1]

Segundo Paula Alzugaray:
"O documentário é uma ferramenta nas mãos do artista que volta suas ações e pesquisas para conteúdos sociais. De outra parte, as estratégias da arte contemporânea, quando consideradas pelos documentaristas, potencializam a crítica e o poder de questionamento que o documentário já carrega por si. Além de reforcar a dimensão do documentário como lugar de encontro com o outro. Da aproximação entre arte e documentário, cabe uma comparação com a pesquisa da curadora Ligia Canongia sobre a soma das linguagens do cinema e das artes plásticas. A partir dos códigos compartilhados entre ambos os campos, a arte documental é uma linguagem estética autônoma, em formação."

Paula Alzugaray é curadora independente e jornalista especializada em artes visuais. Cursa mestrado na área de Comunicação e Estética do Audioviosual, na ECA/USP, onde desenvolve uma pesquisa sobre as relações entre arte e documentário. Entre os projetos curatoriais, realizou a mostra “Videometria: o vídeo como ferramenta de medição na arte contemporânea brasileira”, no Off Loop Festival, em Barcelona, e a mostra “Situ/ação: vídeo de viagem”, no Paço das Artes, em São Paulo. Integra a Comissão de Seleção e Programação do Videobrasil.

Interseções – Documentário, Arte Contemporânea e Vídeo
Por Alevi Ferreira
O projeto Imagem Pensamento apresenta, nos dias 29 e 30 de setembro, às 20h, a mostra “Interseções – Documentário, Arte Contemporânea e Vídeo”. No primeiro dia, serão exibidos os vídeos “Muxima”, de Alfredo Jaar e “White Balance (to think is to forget differences)”, de François Bucher. Após a exibição, acontecerá a mesa-redonda “Interseções: documentário e arte contemporânea”, com a participação de Consuelo Lins, Cezar Migliorin e Paula Alzugaray. No dia 30 de setembro, o Imagem Pensamento exibirá “Leituras”, de Consuelo Lins; “If every girl had a diary”, de Sadie Bening; “Sea in the blood”, de Richard Fung, “NYC weights and measures”, de Jem Cohen, “I think it would be better if I could weep – operator #17”, de The Atlas Group. Após a sessão, acontecerá o debate “Outros documentos”, com as diretoras Patrícia Moran e Clarisse Alvarenga. O Imagem Pensamento acontece sempre com ENTRADA FRANCA no Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes.

Imagem: Video Data Bank

“Sea in the blood”, de Richard Fung

quinta-feira, agosto 30, 2007

Suspensão – Tempo, Paisagem, Performance, TV: Vídeo
Por Alevi Ferreira
A mostra “Suspensão – Tempo, Paisagem, Performance, TV: Vídeo”, apresentada dia 25 de agosto no Cine Humberto Mauro contou com os comentários do professor do curso de Arquitetura da UFMG e crítico de arte Stéphane Huchet. O professor abriu o debate com um comentário a respeito de cada um dos vídeos exibidos. Sobre a obra de Antonio Muntadas “Video is television?” (1989), Huchet disse que o vídeo apresenta o conjunto de discursos sociológicos produzidos à época (1989). “Além disso, o vídeo de Muntadas é um fluxo eclético onde todas as imagens se equivalem”, diz. Para ele, Muntadas demonstra que essa equivalência faz com que as imagens sejam meras mercadorias. Para Huchet, essas imagens, mesmo tornadas mercadorias, ainda sim são imagens: guardam uma potência que pode escapar ao discurso redutor imposto pela mídia.

Em “The Fall”(2004), de Mel O’Callaghan, vídeo que abriu a mostra, Huchet destacou a poética da imagem, o artifício que transforma a imagem em vegetação. “É o sublime e o grotesco, como no romantismo”, disse.

Para Stéphane Huchet, o vídeo de Gabriela Golder, “Vacio”(2005), foi o mais tocante. “É o trabalho mais silencioso, o mais lento, o mais suspenso e o que nos diz mais coisas”, diz. Para ele, o vídeo trabalha com uma noção de tempo pré-moderna, remetendo a uma temporalidade mitológica. Além disso, Huchet ressaltou a questão do olhar no vídeo. “Aquilo que nos olha nesse vídeo é de uma força assustadora”, diz, lembrando Georges Didi-Huberman em “O que vemos, o que nos olha”. “Demonstra a fascinação do olhar do animal, capaz de manifestar o vazio”.

Sobre o vídeo de Dima El-Horr, “9 Years Later” (2004), Huchet ressaltou a força das construções gráficas da obra. Para ele, a verticalidade das árvores a horizontalidade da paisagem permitem uma fuga icônica e formam uma beleza musical.

Para Huchet, “Eu desisto”(2004), de Roberto Bellini, apresenta o toque lírico da relação entre o desenho e o cinema, além de mostrar, de forma acentuada, o universo pictórico pronunciado. Sobre “Pure Reality”(2001), de Gert Hatsukov, Huchet discordou da exibição legendada da obra, que é um vídeo sem imagens, mas com áudio. Para Huchet, entender o que se fala serve apenas para uma função ilustrativa que não interessa para a fruição da obra. “Não precisa de legenda”, disse. “Quando a voz vira texto, muda a relação”. Esse também foi o ponto destacado no trabalho de Mona Hatoum, “Measures of Distance”(1988).

A respeito de “I'm Not The Girl Who Misses Much” (1986), de Pipilotti Rist, Huchet fez alguns apontamentos a respeito da velocidade do vídeo, como um “palimpsesto generalizado”, fazendo com que ocorra um ajuste na temporalidade. Sobre a imagem, um borrão que não permite distinguir os traços da artista, Huchet destacou a questão da figuralibidade. “Como as imagens surgem em nós?”, perguntou. “No vídeo, vemos a impossibilidade de uma figura se firmar”. Para Eduardo de Jesus, que fez a mediação do debate, tanto a repetição da voz quanto da imagem são uma estratégia da artista também para subverter a lógica da repetição imposta pela música pop. “O vídeo parece um videoclipe falido, que não cumpre a lógica imposta pela indústria pop”, disse.

Além das observações de Stéphane Huchet, várias pessoas na platéia fizeram perguntas e teceram comentários sobre os vídeos exibidos principalmente sobre a forma como viabilizam processos de suspensão em torno da imagem e do olhar, que por vezes, como no trabalho de Golder, acentuam o vazio.