quinta-feira, agosto 02, 2007
Após o recesso do mês de julho, o Imagem Pensamento retoma as atividades no mês de agosto com a mostra “Suspensão”, com obras de diversos artistas. A mostra acontecerá no dia 25 de agosto no Cine Humberto Mauro no Palácio das Artes. Em breve, mais informações sobre a mostra.
Em seus documentários, por exemplo, Patrícia opta por uma construção da memória com lacunas, onde as falhas, os esquecimentos são elementos tão importantes quanto as lembranças. Trabalhar nessa linha tênue, sem estabelecer uma dicotomia e uma conseqüente hierarquização de informações, demonstra bem como um documentário pode se libertar das amarras da verdade e dar a ver aquilo que a lembrança pode ou não trazer à tona. Intencionalmente ou não, Moran problematiza diversas questões que são caras ao documentário. De forma mais aguda, ela faz isso no filme “Plano-Sequência”, ficção que documenta a vida e a obra do ator Rubs, interpretado por Paulo César Peréio. Em contraposição a uma construção típica do jornalismo, a diretora opõe todo o cinismo de Rubs, que questiona tudo aquilo que é dito sobre ele.
A respeito de sua obra e de seus métodos de filmagem, o Imagem Pensamento realizou uma entrevista com a diretora, disponível em www.imagempensamento.art.br
segunda-feira, maio 21, 2007
Por Alevi Ferreira
No dia 20/05, apresentamos em duas seções a mostra “A Geologia Abstrata de Robert Smithson”. Principal nome da Land Art, Robert Smithson (1938-1973), tem uma obra que, segundo o filósofo Nelson Brissac, se caracteriza por seu interesse pelos processos geológicos e industriais que afetam a paisagem. “É o artista cujo trabalho mais se relaciona - conceitual e operacionalmente - com a mineração”, afirma. “Os primeiros trabalhos tratavam da estrutura dos cristais e suas relações com o pensamento e as paisagens”. Extremamente intelectualizado, o artista também produzia textos teóricos, onde relacionava o seu pensamento artístico com os seus estudos geológicos. “Pode-se falar que ele foi um artista da informação”, afirma Brissac.
Curiosamente, o primeiro vídeo apresentado, “East Coast, West Coast” (22’, 1969), é um retrato irônico de um debate artístico no qual o artista estava inserido no final dos anos 60. Se a costa leste americana, simbolizada no vídeo por Nova York, estava mais preocupada com uma produção artística conceitual, baseada em sistemas e em estudos aprofundados (notadamente a forma com Smithson trabalhava), a costa oeste, representada por Los Angeles, apresentava uma produção artística mais intuitiva, no estilo hippie, onde seria preciso apenas deitar na grama e captar a sensação para se ter a obra. Enquanto Nancy Holt interpreta a artista conceitual nova-iorquina, Smithson veste as roupas do inimigo e assume o papel do artista que se pauta somente nos seus sentimentos. Intimamente relacionado com um primeiro movimento da história do vídeo, aquele da performance, o trabalho demonstra com grande potência, ainda hoje, um debate crucial para as artes plásticas.
A segunda obra, “Spiral Jetty” (35’, 1970), apresenta a construção e o corpo teórico do trabalho mais conhecido de Smithson. Longe de ser um documentário, este filme é, para Eduardo de Jesus, um filme-ensaio, onde é possível conhecer um dos fragmentos que compõem o Spiral Jetty. Segundo Brissac, a forma como o espiral foi construído, em um lugar totalmente afastado, de difícil acesso, faz com que não apenas o espiral no lago seja a obra: o filme, os textos teóricos e as fotografias são formas de se experimentar a obra sem necessariamente estar presente no lago. E mesmo a presença na lago solicita a compreensão e acesso à esses outros fragmentos.
“Floating Island to Travel Around Manhattan Island” (16’, 2005), ultimo video apresentado, é a documentação da realização póstuma de uma obra de Smithson. Aqui mais uma faceta do trabalho do artista é conhecido: um nonsite (um não-lugar), onde o artista discute a relação dentro/fora, principalmente nos esquemas dos museus, e que nessa obra reconstrói um fragmento do Central Park na forma de uma ilha flutuante, que circulou a ilha de Manhattan em 2005. Aos moradores da cidade, foi possível ter a experiência de perceber um fragmento da cidade deslocado. Território em movimento. Ao apresentar esse fragmento reconstruído, Smithson também lembra que o Central Park original também é algo reconstruído, artificial e não obra pura e simples da natureza.
segunda-feira, maio 07, 2007


A cidade iluminada pelas TV em Voyeur (Rio de Janeiro)
No Rio de Janeiro, Anthony Auerbach realizou “Voyeur (Rio de Janeiro) (1’52”, 2006)”, onde ele observa a televisão de outras pessoas. Anthony não tem televisão em casa. A obra apresenta, o breu da noite na cidade iluminado pelos pixels da TV, além da rede social que se forma ao redor do aparelho: a casa vazia com a sala habitada pelos espectadores.
Em “Brilliant City” (14’46”, 2004), de D-Fuse: Axel Stockburger/Mike Faulkner, o acesso que temos à Shangai não se dá mais por um longo movimento de câmera (travelling), mas por meio de um “escaneamento” da cidade. Além disso, como disse Carlos Camargos Mendonça, o dispositivo apresenta uma cidade desacolhedora. A distância como as imagens foram obtidas (do alto do 34° andar de um edifício) apresenta ainda, afirma Mendonça, uma descaracterização dos corpos, transformando-os em uma massa indistinta. A maneira como o movimento é retratado, as manobras militares, o treinamento das crianças, dentre outras coisas, o fizeram lembrar dos filmes de Leni Riefenstahl.
Brilliant City: manobra militar filmada do 34° andar de um edifício.
O vídeo “Spring/Summer” (4’17”, 2002) de Jo Nigoghossian, é muito provavelmente o vídeo que mais proporcionou incômodo na mostra. Crianças brincam (ou brigam) sem saber que estão sendo filmadas. Um tapa na cara logo de lado: uma menina roda em um mastro. A presença da criança na tela, a música, a nossa posição de voyeur... Impossível não relacionar a cena com a performance de uma striper, impossível não lembrar de Kate Moss no videoclipe dirigido por Sofia Copolla para o White Stripes para a música de Burt Bacharat (I just don´t know what you do with myself). Além disso, existe toda uma violência por parte das crianças, que agridem umas às outras. As imagens vão ganhando significados cada vez mais perversos, a posição de voyeur fica mais incômoda. O exercício de olhar a cena torna-se quase criminoso. Se a câmera representa o nosso olhar, preferiríamos olhar para outro lado.

Cena de Spring/Summer
Em “Sorria” (6’22”, 2005) de Gabriel Sanna, mais uma vez somos apresentados a imagens “roubadas”. A filmagem só é interrompida quando o “presidente” do Mercado Central de Belo Horizonte descobre que estava sendo filmado e, irritado, pede para que a gravação seja encerrada. Em entrevista com o curador da mostra, Anthony Auerbach, perguntamos sobre essa relação dúbia das pessoas com a câmera, “naturalidade” perante a câmera de vigilância, desconforto diante das outras câmeras. Para Auerbach, “se você descobrisse que estava sendo filmado por uma câmera escondida ou por uma câmera que você não soubesse que estava funcionando, então você poderia chatear-se porque não teve a chance de mudar o seu comportamento ao dirigir-se de algum modo para a câmera. As pessoas colocam "Sorria, você está sendo filmado" não necessariamente para lhe chamar a atenção. Eles querem modificar o seu comportamento.”
Sorria: para Auerbach, eles querem mudar o seu comportamento
Além disso, as imagens do vídeo seguem a tendência de um certo tipo de imagem que têm ganhado espaço na mídia, ou seja, imagens de baixa qualidade, que pouco mostram. Na recente chacina ocorrida em Virginia (EUA), as redes de TV americanas divulgaram imagens que nada mostravam do assassinato em massa, mas que foram filmadas durante o ataque. O valor da imagem não está naquilo que ela mostra, mas na rede simbólica que é capaz de abrir.
Traffic Interrelations: reconstituição de corpos fragmentados
Para Carlos Camargos Mendonça, professor da UFMG e convidado para comentar a mostra, “Traffic Interrelations” (8’40”, 2006) de Hasmik Avagyan e Marine Ayvazyan, apresenta uma reconstituição de corpos fragmentados. As pessoas dentro do ônibus quase nunca são filmadas inteiramente. É sempre um pedaço: os olhos, as mãos, o rosto, o colo, o cabelo... Para César Guimarães, assim como em outras obras da mostra, esse vídeo apresenta a impossibilidade do olhar. Se no cinema existe a relação campo/contra-campo, dentro/fora, nesses vídeos o olhar bate e rebate dentro de um mesmo lugar, em imagens “ensimesmadas”. Na posição de voyeur, só temos a opção de olhar para essa única imagem sem um fora, quase massacrando a própria possibilidade do olhar. Possibilidade de olhar que César encontra no vídeo “Radana’s Channel” (6’24”, 2004) de Radana Valúchová and Monika Kováèová, onde uma TV é filmada enquanto alguém transita pelos diversos canais.

Radana’s Channel: o olhar restituído
“Bournemouth Monster” (3’, 2003) de Undercurrents News Network, questiona até que ponto a polícia tem o direito de filmar os cidadãos, uma vez que a posição das câmeras nas ruas permite a filmagem não só dos pedestres, mas dentro dos apartamentos das pessoas. Indignado com essa invasão, o artista veste uma pessoa com uma fantasia de monstro, para andar nas ruas e alertar as autoridades. O absurdo da situação nos leva a pensar sobre que tipo de segurança essas câmeras nos oferecem. E como bem apontou Carlos Camargos Mendonça, para o tipo de violência simbólica que esse controle proporciona.

Bournemouth Monster: um monstro contra a violência simbólica dos dispositivos de controle
Novamente imagens “roubadas”: o artista filma, em “Surveillance and Punishment” (4’, 2003) de Carlo Sansolo, um longo beijo de dois adolescentes. No áudio, um diálogo do artista com uma amiga, onde mensagens incoerentes e violentas completam o vídeo.
O longo beijo de Surveillance and Punishment
Em “Wie Geht es Ihnen?” (7’40”, 2004) de Anca Daucikova, o rosto da pessoa que é observada pela câmera nos é ocultado. Logo o rosto, onde sempre buscamos um índice qualquer para nos identificarmos, é deliberadamente omitido do espectador. Não se trata de um respeito à identidade da pessoa que é filmada, já que outras pessoas têm o rosto mostrado e outras ocultado. Além do incômodo, somos obrigados a buscar no gestual, na cidade, outros vetores para descarregarmos a nossa carência. Se o voyeur busca prazer ao observar algo, nesse caso temos que encontrar outro que não seja o rosto da pessoa filmada.

Wie Geht es Ihnen?: o rosto omitido